cover
Tocando Agora:

Receita médica pelo TikTok: influencers podem estimular uso indevido de medicamentos, alerta farmacêutico

Fique por Dentro: farmacêutico cita riscos em ouvir influencers para se medicar A recomendação de um medicamento ou suplemento por influenciadores digitais p...

Receita médica pelo TikTok: influencers podem estimular uso indevido de medicamentos, alerta farmacêutico
Receita médica pelo TikTok: influencers podem estimular uso indevido de medicamentos, alerta farmacêutico (Foto: Reprodução)

Fique por Dentro: farmacêutico cita riscos em ouvir influencers para se medicar A recomendação de um medicamento ou suplemento por influenciadores digitais pode parecer inofensiva, mas seguir esse tipo de orientação sem avaliação profissional representa um risco à saúde. O alerta é do farmacêutico e professor Paulo Arrais, que destaca os perigos da automedicação e do autodiagnóstico, práticas que também ganharam espaço com a popularização das redes sociais e da inteligência artificial (IA). Siga o canal do g1 Ceará no WhatsApp Segundo Arrais, o principal problema é que os criadores de conteúdo não conhecem as condições de saúde, o estilo de vida ou as necessidades de cada pessoa que acompanha suas publicações. Por isso, um produto que funciona para alguém pode ser inadequado para outra pessoa. “É um risco muito grande. Eu sempre digo e repito, é muito importante acessar o médico para que ele possa fazer uma avaliação antes de você usar até mesmo uma coisa que essa influência ou a influência esteja indicando”, afirma. O professor também chama a atenção para o uso de medicamentos sem necessidade, inclusive para fins estéticos e de emagrecimento. Segundo ele, essa prática pode representar uma agressão ao organismo e provocar consequências graves. Influenciadores não conhecem as condições de saúde dos seguidores Sem tratar a real causa do problema, automedicação pode ainda desencadear quadros mais graves Carlos Poly A divulgação de vitaminas, suplementos e medicamentos nas redes sociais pode levar as pessoas a consumir produtos sem saber se realmente precisam deles ou se existem contraindicações para seu uso. Arrais explica que a recomendação feita por um influenciador não leva em conta fatores individuais que precisam ser avaliados antes de iniciar o uso de uma substância. “O risco é exatamente esse, né? De você entrar numa onda que não é a sua, porque a influência não conhece o que você tem em termos de doença, não conhece como é a sua atividade no dia a dia, o seu estilo de vida, né? Se você porta alguma doença, se não porta alguma doença”, diz. O farmacêutico reforça que até mesmo produtos considerados comuns, como vitaminas e suplementos, devem ser utilizados com orientação adequada. A recomendação é procurar um médico antes de iniciar o consumo para avaliar se há necessidade de uso. Automedicação pode provocar intoxicações e interações medicamentosas A automedicação ocorre quando uma pessoa utiliza medicamentos por conta própria, sem prescrição médica ou odontológica. De acordo com Arrais, a prática aparece frequentemente em situações cotidianas, como dores, mas também envolve suplementos, vitaminas e até antibióticos. O problema não está apenas na escolha do medicamento. A dose, o tempo de uso, a apresentação do produto e a forma de administração também influenciam seus efeitos no organismo. “O perigoso é você fazer o uso da medicação sem saber a dose, o tempo em que vai usar, certo? Reconhecer o tipo de apresentação, se é um medicamento de uso no momento ou se é de ação prolongada, que você vai tomar e ele vai agir durante o dia todo”, explica. Outro risco é a interação entre diferentes medicamentos. Uma pessoa que já utiliza um remédio pode apresentar reações adversas ao acrescentar outro à rotina. Também existe a possibilidade de o paciente consumir uma substância à qual já tenha desenvolvido sensibilidade, provocando reações na pele ou distúrbios gastrointestinais. O uso excessivo e prolongado de analgésicos e anti-inflamatórios também preocupa o professor. Segundo ele, a prática pode provocar problemas renais, especialmente quando a pessoa continua tomando medicamentos para aliviar sintomas sem investigar a causa. “Usos muito prolongados, eles, às vezes, são muito prejudiciais”, alerta. Autodiagnóstico pela internet também exige cuidado Antes de tomar um medicamento por conta própria, muitas pessoas tentam identificar o que estão sentindo com pesquisas na internet ou conversas com ferramentas de inteligência artificial. Para Arrais, o uso desses recursos para obter diagnósticos é perigoso porque a avaliação médica envolve procedimentos que não são realizados pela IA, como o exame físico e a investigação detalhada dos sintomas. “E isso é muito perigoso, porque para você ter um diagnóstico, médico no caso, o médico precisa fazer várias perguntas, fazer uma avaliação física, e isso a IA não faz. Ela está respondendo com base no que você está dizendo”, afirma. O professor ressalta que a forma como o usuário descreve os sintomas pode influenciar as respostas geradas pela ferramenta. A partir disso, a pessoa pode receber sugestões inadequadas e acabar utilizando medicamentos mais fortes sem necessidade. Arrais também alerta para quem insiste em tomar analgésicos quando uma dor de cabeça não passa. O uso frequente desses medicamentos pode provocar o chamado efeito rebote, em que a própria dor de cabeça passa a se repetir e a pessoa sente necessidade de tomar doses cada vez maiores ou mais frequentes. A orientação é procurar atendimento médico quando os sintomas persistirem, em vez de continuar tentando resolvê-los por conta própria. Sobras de medicamentos em casa aumentam os riscos Manter medicamentos guardados em casa também pode favorecer a automedicação. Segundo Arrais, as chamadas “farmacinhas” domésticas muitas vezes são formadas por sobras de tratamentos interrompidos antes do prazo recomendado. Quando os sintomas melhoram, algumas pessoas deixam de tomar o medicamento e guardam o restante para uma eventual necessidade futura. Ao sentir novamente um problema semelhante, recorrem ao produto sem investigar a causa. O professor alerta que essa atitude pode mascarar uma doença que exige avaliação médica. Além disso, medicamentos armazenados em locais inadequados podem perder qualidade. Arrais destaca que o banheiro, por exemplo, costuma ter muita umidade, condição que pode prejudicar a conservação dos produtos. Alguns medicamentos também precisam ser mantidos sob refrigeração, conforme as orientações específicas de armazenamento. Outro perigo envolve crianças, que podem ingerir medicamentos acidentalmente ao confundi-los com objetos ou produtos atrativos. O professor relata que o Centro de Estudos em Toxicologia acompanha casos de intoxicação acidental por medicamentos envolvendo esse público. Farmacêutico pode orientar sobre o uso correto Arrais destaca que o farmacêutico tem um papel importante na prevenção dos riscos associados à automedicação. O profissional pode orientar sobre a dose, o tempo de uso, a forma de administração, as contraindicações e as possíveis interações entre medicamentos. Mesmo os remédios vendidos sem receita devem ser utilizados com cuidado. Segundo o professor, a população deve procurar o farmacêutico para esclarecer dúvidas antes de iniciar o uso. “Os medicamentos isentos de prescrição, de venda livre, procuram o farmacêutico para receber as orientações corretas, né? Mesmo que você acha que saiba, procura o farmacêutico e diga, olha, eu preciso desse medicamento, né? Como é que eu devo fazer? Eu estou fazendo certo?”, orienta. A leitura da bula também é importante para conhecer os efeitos adversos, as contraindicações, os riscos de interação e os limites de utilização do medicamento. Arrais ressalta, porém, que as dúvidas devem ser esclarecidas com o médico ou o farmacêutico. Grupo da UFC oferece informações sobre medicamentos Paulo Arrais integra o Grupo de Prevenção ao Uso Indevido de Medicamentos, criado em 1990 pela professora Helena Lutécia Luna Coelho. Vinculado à Universidade Federal do Ceará (UFC), o grupo atua na democratização das informações sobre medicamentos e desenvolve atividades de ensino, pesquisa e extensão. A estrutura também inclui iniciativas de farmacovigilância, toxicologia, estudos em farmácia clínica e cuidados farmacêuticos. Segundo Arrais, o grupo mantém um Centro de Informação sobre Medicamentos, que pode ser procurado pela população para esclarecer dúvidas e receber orientações sobre o uso de remédios. O serviço funciona pelo telefone (85) 3366-8293, conforme informado pelo professor durante a entrevista. A principal recomendação é não iniciar tratamentos apenas com base em conteúdos vistos nas redes sociais. A avaliação profissional permite verificar se o medicamento é realmente necessário e quais cuidados devem ser adotados para reduzir os riscos à saúde. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

Fale Conosco